Largo de Lijó “baptizado” com nome do Dr. Vale Ferreira 12-6-2008
A freguesia de Lijó e um grupo de verdadeiros amigos de Vale Ferreira, no primeiro aniversário da sua morte, recordaram-no de forma especial, no passado domingo, com uma eucaristia solene, inauguração de um monumento e descerramento de uma placa toponímica no largo, perto da casa onde nasceu.
“Vale Ferreira foi um homem que soube dar-se aos outros. Alegria, ternura e solidariedade eram os grandes lemas da sua vida. Um homem de uma só cara, de um só querer. Esta homenagem é para continuar a recordar este nosso grande amigo, quando faz um ano que nos deixou para sempre.” Foi com estas palavras que Vítor Pinho, um dos organizadores da homenagem, resumiu para a Voz do Minho o que aconteceu no passado domingo, em Lijó. “Um grupo de amigos de Vale Ferreira, que a título póstumo, lhe faz esta homenagem pública ao homem que foi professor, poeta, jornalista e, principalmente, amigo. Jamais se apagará da nossa memória a sua nobreza de carácter, a sua determinação em prol de causas justas, a verticalidade com que norteava a vida, a sua educação esmerada, a sua capacidade de gerar amizades, a sua paixão pela Língua Portuguesa, concretamente Camões, o carinho pelos pais, o amor à sua Pátria, a Barcelos, à sua terra, Lijó. Um homem de fé inquebrantável, dedicado de corpo e alma à escola e aos alunos, que nos deixou um conjunto de poemas cheios de mensagens humanas e sociais. A sua amizade sincera, a sua alegria, a sua boa disposição não podem deixar de ser relembradas”. Lijó encheu-se de amigos e conhecidos e a Junta de Freguesia, em sinal de reconhecimento, decidiu dar o seu nome a um largo que fica junto da casa onde nasceu, e que fica imortalizado num dos seus versos: ”volto sempre, dia e noite, à pureza das origens: treze árvores me saúdam, sem receio de fuligens!” Segundo Constantino Carvalho, presidente da Junta de Lijó, “reconhecemos com este gesto o valor de quem trabalhou em prol da poesia e dedicou um amor muito grande à sua terra natal. É uma justa homenagem que fazemos a um homem que muito nos ajudou, que colocou a nossa freguesia na sua poesia. Era um bom conselheiro que eu tinha.” A homenagem principiou com uma romagem ao cemitério, onde está enterrado. Seguiu-se uma missa solene na igreja paroquial presidida pelo arcebispo primaz, D. Jorge Ortiga, e concelebrada pelos párocos: João Granja, Carlos Vaz e Albino Faria. Solenizada pelo grupo coral Magistroi de Carapeços, sob a regência do maestro Manuel Fonseca. Jorge Ortiga no final da homilia fez questão de recordar Vale Ferreira como um homem bom que “a todos convida a serem continuadores da sua obra, do seu sonho, da sua forma de encarar o mundo, a realidade, baseada na justiça, na amizade, na sã convivência”. Para o arcebispo, “João Vale Ferreira, desde a sua infância, soube ouvir o convite do Senhor, a quem ele, à sua maneira, sempre foi fiel. Com o seu trabalho social, com as suas qualidades, alicerçadas numa fé inabalável, ajudou a tornar o nosso mundo mais justo, mais amigo, mais ternurento. No fundo, a homenagem que lhe fazemos, hoje, convida-nos a todos os presentes a continuar a fazer tudo aquilo que ele não conseguiu acabar”. Quase no final da eucaristia, houve tempo para ouvir, da voz de Joana Matos um dos seus poemas que se vai tornar o hino de Lijó “Senhora da Abadia de Lijó” e também o Hino ao Senhor da Cruz que ele criou e que o Coro de Carapeços, no momento de acção de graças, entoou de forma sublime. Seguidamente, o grupo de amigos dirigiu-se à sede de Junta para continuar com a homenagem. Perante o representante da Câmara Municipal de Barcelos, do presidente da Assembleia Municipal, do presidente da Freguesia de Lijó, representante da família e oradores, deu-se início às intervenções dos convidados. Vítor Pinho, agradeceu a presença de todos e justificou a homenagem e passou de seguida a apresentar os oradores. Estava agendada a presença de Carlos Vaz que iria falar de Vale Ferreira como poeta, Lino Moreira, como professor e Eduardo Costa, como jornalista, no entanto, Lino Moreira, por questões de saúde e Eduardo Costa por atraso, não puderam comparecer e, dessa forma, só Carlos Vaz discursou, deambulou pela poesia de Vale Ferreira tendo por trás a ideia de um Deus criador e amoroso. Passados mais de 50 anos de uma amizade sólida que o unia ao Vale Ferreira, desde os tempos em que ambos entraram no Seminário, Carlos Vaz apresentou ao público presente uma dissertação interessante que intitulou: “O Homem que quis fazer da sua vida ternura” em que reforçou essa vertente amorosa ternurenta que tantas vezes emerge da poesia de Vale Ferreira, no fundo a presença imanente da vontade amorosa e ternurenta de um Deus criador, de “um Deus que nos deu um mundo por amor para cada um de nós o receber como um acto de amor. Isto é um gesto difícil que requer inteligência e coragem. Esse mundo, a nossa vida só ganha sentido se o amor, se a ternura nos habitar”. Vale Ferreira “tinha a delicadeza de trato, foi um grande humanista que soube ver na Palavra de Deus, no Deus Amor, os fundamentos para a sua poesia e seu ideal de vida”. Vários poemas do Vale Ferreira foram declamados, com mestria, por Armindo Cerqueira. Por último, todos se deslocaram ao largo dos plátanos, que fica no lugar onde nasceu Vale Ferreira e, na presença do presidente da junta, Constantino Carvalho e do pai do homenageado, Alexandrino Ferreira, se descerrou a placa toponímica e se inaugurou o monumento, que perpetuará o homem poeta, professor e jornalista que soube captar da vida aquilo que ela tem de mais precioso: a amizade, a ternura, a entrega.